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· 7 min de leitura

MP 1.355/2026 acabou de mudar o FGTS: sacar agora ou guardar pra financiar?

No dia 4 de maio de 2026, em uma edição extra do Diário Oficial, o governo publicou a Medida Provisória 1.355/2026. Ela altera a MP 1.331/2025 e abre uma janela específica: até 1º de junho de 2026, cerca de 14,1 milhões de trabalhadores que aderiram ao saque-aniversário e foram desligados entre 2020 e 2025 podem sacar de uma vez o saldo restante das contas do FGTS. São aproximadamente R$ 7,8 bilhões parados.

Quem entra nesse grupo está olhando pro saldo da conta e fazendo a mesma pergunta no Reddit, em grupo de WhatsApp e na fila do banco: "saco tudo agora ou guardo pra usar no financiamento da casa?". Este post faz a conta.

O que a MP 1.355/2026 fez

A MP 1.331/2025 já tinha liberado a multa rescisória pra esse grupo, mas com saque escalonado até fevereiro de 2026 e teto inicial de R$ 1.800. A MP 1.355/2026 abriu uma janela extraordinária: até 01/06/2026, fica liberado o valor disponível nas contas do FGTS desses trabalhadores, sem teto, incluindo a revisão do bloqueio das garantias da antecipação do saque-aniversário contratada até 04/05/2026.

Quem tem direito:

Quem não sacar até 1º de junho vê o valor voltar pra conta do FGTS. A partir daí, ele só pode ser movimentado nas hipóteses normais da Lei 8.036/90: demissão sem justa causa, aposentadoria, doença grave, compra de imóvel pelo SBPE/Pró-Cotista e outras.

Daí vem o dilema.

O Pró-Cotista é a linha mais barata pra quem tem FGTS

A MP 1.355 não alterou a linha Pró-Cotista do FGTS. É nela que o saldo do FGTS rende mais, e em 2026 ela funciona assim:

Em 30 anos, três pontos a menos pesam muito, como a simulação abaixo mostra.

A simulação: imóvel de R$ 350 mil, FGTS de R$ 35 mil

O caso é o de um trabalhador CLT com alguns anos de carteira, FGTS acumulado de R$ 35 mil, mirando um imóvel de R$ 350 mil em capital ou região metropolitana. A entrada planejada é de 20% (R$ 70.000): R$ 35k de FGTS e R$ 35k de poupança própria.

Três caminhos:

A. Saca os R$ 35 mil agora (uso livre: quitar dívida, viagem, gasto pessoal). Entra no financiamento só com R$ 35 mil de entrada e financia R$ 315 mil via SBPE comum a 11,5% a.a.

B. Mantém os R$ 35 mil no FGTS, usa como complemento da entrada, financia R$ 280 mil via Pró-Cotista a ~8,2% a.a. (TR + 8,16%; a faixa acima de R$ 350k não se aplica aqui, mas mantemos a taxa por conservadorismo).

C. Saca os R$ 35 mil, aplica em CDI (rende ~12% a.a. líquido com Selic 14,50%, e no longo prazo histórico fica mais perto de 10%), e financia R$ 315 mil via SBPE comum a 11,5%.

Os três no sistema SAC, 360 meses.

Parcela inicial e custo total dos juros

Cenário Financiado Taxa a.a. Parcela inicial (SAC) Juros totais ~30 anos
A: Saca + SBPE comum R$ 315.000 11,5% R$ 3.894 ~R$ 545.000
B: Guarda + Pró-Cotista R$ 280.000 8,2% R$ 2.691 ~R$ 345.000
C: Saca, aplica CDI, SBPE R$ 315.000 11,5% R$ 3.894 ~R$ 545.000

De A para B, a diferença é de R$ 1.203 a mais por mês no início e de cerca de R$ 200 mil a mais em juros ao longo de 30 anos. O cenário B só é possível porque o FGTS continuou na conta.

"Mas no cenário C, o dinheiro investido em CDI cresce, não cresce?"

Cresce. A questão é se cresce o bastante pra pagar a diferença de parcela do SBPE comum.

R$ 35.000 aplicados a 10% a.a. líquido (média histórica de pós-fixados, e não a Selic atual) viram cerca de R$ 610.000 em 30 anos. No mesmo prazo, o cenário B "economiza" cerca de R$ 200 mil em juros e R$ 1.203/mês em parcela. Se você investir essa diferença mensal também a 10% líquido, o cenário B acumula mais de R$ 2,7 milhões em patrimônio paralelo.

O cenário C só ganharia do B em duas hipóteses. Uma é o CDI ficar acima de ~16% a.a. líquido por 30 anos seguidos, o que não acontece. A outra é um prazo muito curto, do tipo "vou quitar o financiamento em 5-7 anos": aí o dinheiro líquido na mão dá flexibilidade. Em prazo longo, o Pró-Cotista vence com folga.

Quando sacar faz sentido

O cenário B depende de o Pró-Cotista estar ao seu alcance. Sacar agora é a escolha certa em pelo menos três casos:

  1. Você não vai financiar imóvel nos próximos 3 anos. Sem horizonte de uso, o dinheiro rende pouco no FGTS (TR + 3% a.a., na prática algo perto de 3% nominal), menos que qualquer Tesouro Selic.
  2. Você já tem o imóvel financiado e não pretende amortizar. Saldo de FGTS em conta inativa não gera benefício direto futuro.
  3. Você tem dívidas com juros altos. Cartão, cheque especial, crediário. Quitar R$ 35 mil de cartão a 14% ao mês rende mais do que qualquer aplicação, então saque e quite.

Quando NÃO sacar

Não saque se:

  1. Você tem plano concreto de financiar nos próximos 24-36 meses. O Pró-Cotista exige que o saldo esteja na conta, e sacar agora zera a base.
  2. Seu salário atual continua depositando FGTS. Em 24 meses, com salário médio de R$ 4.500, você acumula ~R$ 8.600 (8% sobre o salário, sem rendimento). Se sacar agora, parte do zero. Se mantiver, parte de R$ 35k + R$ 8,6k = R$ 43,6k.
  3. Você atende às 36 contribuições. Esse é o filtro do Pró-Cotista. Com menos de 36, você não entra na linha, e sacar não muda nada.

O saque não fecha a porta do FGTS

Sacar não impede você de usar FGTS futuro no financiamento. O FGTS pode ser usado em três momentos: na entrada (uso comum, em qualquer SBPE), na amortização extraordinária ou pra abater parcelas. Os três seguem disponíveis mesmo se você zerar a conta hoje.

O que muda é o ponto de partida. Depois do saque, você volta pra zero (ou pro saldo dos depósitos futuros), e o Pró-Cotista, que depende de saldo + 36 contribuições, perde peso na sua estrutura de capital. A linha barata continua disponível no papel, mas a parte da entrada que viria do FGTS vai ter que sair do seu bolso.

A decisão

A MP 1.355/2026 abriu uma janela, e a janela sozinha não decide nada. Você está escolhendo entre R$ 35 mil líquidos hoje e três pontos percentuais a menos em 30 anos de financiamento.

Pra quem tem dívida cara, não pretende comprar imóvel ou tem horizonte curto, sacar é a escolha certa. Pra quem pretende comprar nos próximos 2-3 anos e tem renda dentro do teto do Pró-Cotista, manter o FGTS na conta vale ~R$ 200 mil em juros no longo prazo.

Faltam poucos dias até 01/06. Simule antes de decidir. Use o simulador de juros de obra com a taxa do Pró-Cotista (TR + 8,16%) e compare lado a lado com a taxa do SBPE comum (11,5%). O fluxo mês a mês mostra a diferença.


Fontes: Medida Provisória 1.355/2026 (Congresso Nacional) · Câmara dos Deputados: MP libera saque do FGTS · Caixa: Saque FGTS MP 1331/2025

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