← Blog

· 7 min de leitura

Desistir do imóvel na planta: quanto você perde no distrato (e como a conta é feita)

Você comprou na planta, a vida mudou — perdeu o emprego, o financiamento não foi aprovado, o casal se separou — e agora quer desistir. A pergunta que importa: quanto do que você já pagou volta?

A resposta curta: menos do que você imagina, e mais tarde do que você gostaria. A resposta longa está na Lei 13.786/2018, a chamada Lei do Distrato, e a gente desmonta ela aqui com números.

O que é distrato

Distrato é o desfazimento do contrato de compra e venda por iniciativa do comprador, antes da entrega das chaves. Não confunda com rescisão por culpa da construtora (atraso além da tolerância, por exemplo) — nesse caso a regra é outra e muito mais favorável a você (falamos disso no post sobre o Tema 996).

Aqui o cenário é: a construtora cumpriu a parte dela, e você quer sair.

O que a lei permite reter

Quando o comprador desiste, a Lei 13.786 autoriza a construtora a descontar, da soma de tudo que você pagou:

  1. A comissão de corretagem, integralmente. Aquele valor pago no dia da assinatura (tipicamente 5% a 6% do imóvel) não volta nunca — ele foi para o corretor, não para a construtora.
  2. Multa (pena convencional) de até 25% do que sobrar.
  3. Se o empreendimento estiver em patrimônio de afetação — regime em que o caixa da obra fica juridicamente separado do caixa da construtora, hoje o padrão em lançamentos —, a multa pode chegar a 50%.
  4. Impostos que incidiram sobre o imóvel e, se você chegou a ocupar a unidade, cotas de condomínio e um valor mensal pela fruição.

A conta em números

Imagina um apartamento de R$ 400.000 comprado na planta. Você pagou entrada + mensais e desembolsou R$ 100.000 até aqui, sendo R$ 24.000 de corretagem (6%).

Regime comum Patrimônio de afetação
Total desembolsado R$ 100.000 R$ 100.000
Corretagem retida R$ 24.000 R$ 24.000
Base para a multa R$ 76.000 R$ 76.000
Multa (25% / 50%) R$ 19.000 R$ 38.000
Você recebe de volta R$ 57.000 R$ 38.000
Perda total R$ 43.000 (43%) R$ 62.000 (62%)

Com patrimônio de afetação — repetindo: o regime mais comum nos lançamentos atuais — você pode perder mais da metade de tudo que pagou.

E quando o dinheiro volta?

Essa parte quase ninguém conta antes da assinatura:

O que não entra nessa conta

Se você já assinou o financiamento bancário e está pagando juros de obra, esses valores foram para o banco — a construtora não devolve o que você pagou de juros, seguro e taxa de administração ao banco. (Relembre quanto isso custa aqui.) Distrato com financiamento bancário já assinado é ainda mais complexo, porque envolve quitar ou transferir a dívida com o banco antes de desfazer o negócio com a construtora.

Alternativas antes de aceitar a multa

  1. Cessão de direitos ("vender o contrato"). Você encontra outro comprador que assume sua posição no contrato. A construtora costuma cobrar taxa de transferência (2% a 5%), mas você escapa da multa de 25–50% e ainda pode recuperar valorização. É quase sempre melhor que o distrato — desde que exista comprador.
  2. Negociar diretamente. Construtora com estoque encalhado às vezes aceita trocar sua unidade por outra menor, estender prazo de mensais ou reduzir a multa para evitar judicialização.
  3. Verificar se a culpa é mesmo sua. Obra atrasada além da tolerância de 180 dias, mudança de projeto, financiamento negado por falha da construtora no repasse — em vários cenários a rescisão é por culpa dela, e aí a devolução é integral e corrigida.

Checklist antes de assinar (para nunca precisar deste post)


Simule o custo real do financiamento antes de assinar em jurosobra.com.br

Abrir simulador de juros de obra →