← Blog

· 5 min de leitura

Saldo devedor durante a obra: como ele cresce, o que entra na conta e por que isso muda sua parcela pós-chave

Quem paga juros de obra costuma perguntar "quanto eu devo agora?" e descobrir que a resposta muda todo mês, sem ter pago nenhuma parcela do financiamento "de verdade". O saldo devedor durante a obra funciona de um jeito específico no financiamento na planta, e entender esse jeito evita susto na entrega das chaves.

A regra básica

Saldo devedor é quanto você ainda deve ao banco. Num financiamento de imóvel pronto, o saldo começa no valor financiado e cai mês a mês conforme você amortiza.

Na fase de obra, acontece o contrário. O saldo começa em zero (ou perto disso) e sobe mês a mês, conforme o banco libera dinheiro pra construtora a cada medição.

O saldo devedor durante a obra é a soma do que o banco já desembolsou pra construtora até aquele mês.

Como o saldo cresce na prática

Imagine um financiamento de R$ 300.000 com obra de 24 meses e medições uniformes (4,17%/mês). O cronograma fica:

Mês % liberado acumulado Saldo devedor Juros do mês¹
1 4,17% R$ 12.500 ≈ R$ 104
6 25% R$ 75.000 ≈ R$ 626
12 50% R$ 150.000 ≈ R$ 1.252
18 75% R$ 225.000 ≈ R$ 1.878
24 100% R$ 300.000 ≈ R$ 2.503

¹ Taxa nominal 10,49% a.a. → mensal equivalente 0,834%.

O juro de obra do mês é o saldo devedor × a taxa mensal. Como o saldo cresce, o juro cresce junto, e no último mês de obra você paga 25× o juro do primeiro.

Cronograma uniforme vs cronograma real

A maioria das simulações assume medições uniformes, mas na obra real isso é raro. A curva costuma ser mais lenta no começo (fundação, terraplenagem) e mais rápida no meio (estrutura, alvenaria).

Cronograma típico de uma obra residencial:

Etapa % do total liberado
Fundação e infraestrutura 8% a 12%
Estrutura 20% a 28%
Alvenaria e vedações 12% a 18%
Cobertura 8% a 10%
Instalações (elétrica, hidráulica) 12% a 18%
Acabamento 18% a 24%
Entrega e habite-se 3% a 5%

Isso muda o ritmo do juro de obra mensal, mas não muda o total ao final dos 24 meses se as taxas e os percentuais fossem mantidos. O total de juros da obra depende de quanto tempo o saldo médio fica em cada nível, e não de qual etapa está acontecendo.

INCC: quando o saldo cresce além do desembolsado

No financiamento bancário tradicional (Caixa SBPE, Itaú, Bradesco, Santander), o saldo durante a obra cresce só pelas liberações. Não há correção do saldo pelo INCC, porque a inflação está embutida na taxa nominal.

No financiamento direto com a construtora, é comum o saldo ser corrigido mensalmente pelo INCC. Aí ele cresce por dois motivos:

  1. A liberação da medição.
  2. A correção do INCC sobre o saldo já liberado.

Num ano de INCC alto (como 2021, com 13,79%), isso acrescenta dezenas de milhares de reais ao saldo até a chave. (Falamos disso aqui.)

Por que o saldo final de obra importa tanto

Quando a obra termina e você recebe as chaves, o saldo devedor daquele instante vira o principal do financiamento de longo prazo. As 360 parcelas dos próximos 30 anos são calculadas sobre ele.

Se você financiou R$ 300.000 sem INCC, o saldo final é de R$ 300.000, e o pós-chave parte daí.

Se você financiou R$ 300.000 com correção pelo INCC ao longo de 24 meses a 8% a.a. em média, o saldo final fica em cerca de R$ 350.000, e o pós-chave parte daí.

Isso significa parcelas mais altas, mais juros e seguro MIP mais alto pelo prazo todo. Um saldo final de obra alto é a herança mais cara de uma fase de obra mal planejada.

Como acompanhar o seu saldo

A cada liberação, o banco gera um extrato de movimentação com o valor liberado, a data e o saldo atualizado. Esses extratos costumam estar no internet banking da Caixa (no caso de SBPE/MCMV) ou no portal do correspondente bancário.

Confira todo mês:

Discrepâncias acontecem, em geral por erro de digitação, e você só consegue contestar se acompanhou.

O cálculo, passo a passo

Para calcular seu juro de obra do mês:

  1. Pegue o saldo devedor atual (no extrato).
  2. Pegue a taxa mensal equivalente ao seu contrato. Se a taxa contratual é de 10,49% a.a., a mensal é (1,1049^(1/12) − 1) ≈ 0,8345%.
  3. Multiplique: juro do mês = saldo × taxa mensal.

Em contratos com INCC, some depois: correção = saldo × INCC do mês.

FAQ

Posso amortizar o saldo devedor durante a obra? No SBPE/MCMV bancário, raramente. O contrato de obra prevê que o saldo só começa a ser amortizado depois do habite-se. Em contratos diretos com a construtora, há mais flexibilidade. Leia a cláusula de amortização extraordinária.

Quem recebe o juro de obra: banco ou construtora? No SBPE bancário, o banco. No contrato direto, geralmente a construtora.

E se a obra atrasar? Você paga mais. O saldo já está alto no fim, e cada mês extra cobra juros sobre o saldo cheio. (Detalhamos aqui.)

Como saber se meu contrato corrige o saldo pelo INCC? Procure no contrato por "atualização monetária", "correção pelo INCC" ou "índice de reajuste". Se não achar, pergunte por escrito ao corretor ou ao banco, porque na dúvida o contrato raramente favorece quem assina.


Quer ver seu saldo devedor crescendo mês a mês na fase de obra? Abra o simulador. O gráfico mostra o saldo, o juro mensal e o impacto acumulado até o habite-se.

Abrir simulador de juros de obra →